quinta-feira, 22 de julho de 2010

Samambaia não dá flor

Samambaia não dá flor - Tião Martins

Boa parte dos desajustes, irritações e conflitos entre casais vem das expectativas que homens e mulheres trazem da infância ou da primeira juventude e esperam realizar no acasalamento. Expectativas que se frustram porque os dois esperam que a sua união funcione como passe de mágica.

Nenhum deles prometeu ao outro que a vida seria um jardim, coberto de rosas, mas é isso que, no fundo, eles querem. E, pior ainda, passam a exigir um do outro qualidades imaginárias, virtudes próprias de heróis e heroínas ou a entrega apaixonada e irrestrita que já não existe sequer em romances adocicados ou novelas da TV.

Imaturidade dos dois, você dirá. Entretanto, observando a rapidez com que as juras de eterno amor se dissolvem ao primeiro embate, a conclusão inevitável é de que a maioria dos humanos chega à idade da razão com uma percepção absolutamente imatura da natureza do amor.

O amor é poderoso, mas não faz milagre e nem produz mágicas assombrosas. E o casamento, em vez de ser solução, como tantos ainda insistem em acreditar, é enorme desafio. A cada dia, se o casal é solidário e paciente, um aprende a conhecer e respeitar o modo de ser do outro. Mas se os dois são intolerantes, a mágoa e o ressentimento ocupam o lugar da simpatia e da atração.

Ninguém, em seu juízo perfeito, espera que a samambaia produza girassóis. Samambaias gostam de sombra, água fresca e ambientes tranquilos. Odeiam o vento e as mudanças de lugar e só respiram bem se o lugar onde estão reproduz as condições em que nasceram e cresceram.

A mocinha que se julga apaixonada pela samambaia mas quer viver com ela em lugar ensolarado e no meio da ventania, logo descobrirá que escolheu a companhia errada. E o rapazinho que cativa uma simples margaridinha e espera que ela lhe proporcione as delícias de imenso e vibrante roseiral verá que o amor pode até mudar a natureza das pessoas e das plantas, mas isso nunca se dará aos saltos.

As samambaias, por exemplo, são como gatas: têm horror às mudanças de lugar, de luminosidade ou de clima. Uma vez habituadas à temperatura do seu cantinho, não querem sair de lá. E qualquer mudança afeta a saúde delas. São simpáticas e exuberantes, se tudo em volta estiver como querem, mas começam a definhar, perdem as folhas e podem até morrer, se obrigadas a mudar de pouso.

Qualquer um que tente cultivar samambaias deve começar pela compreensão dessas sutilezas, assim como a decisão de compartilhar sua vida com alguém precisa começar pela aceitação de que essa pessoa que julga amar não tem os gostos, as escolhas e o mesmo modo de ser.

Entretanto, são milhares os fulaninhos e fulaninhas que se acasalam movidos pela ilusão de que vão transformar a natureza, os costumes e as manias do companheiro ou da companheira. Convencidos de que o amor lhes dá esse poder, tentam uma espécie de alquimia, para transformar chumbo em ouro ou uma pessoa no seu oposto.

As samambaias precisam ser adubadas pelo menos uma vez por mês, mas o amor entre humanos exige bem mais que isso. E, se é difícil encontrar dois que se pareçam, é quase impossível encontrar dois que são iguais. O maior espanto é que poucos aprendem a viver com a diferença.

Amigo, você pode amar uma samambaia. Mas, por mais carinho e cuidado que oferecer, a samambaia não dará flor.